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O que os livros infantis ensinam quando não estão a ensinar
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O que os livros infantis ensinam quando não estão a ensinar

Fev 28, 2026

OPINIÃO | SILVIA MOTA

Ler para uma criança vai muito além de decifrar palavras ou decorar histórias. Um livro infantil é, muitas vezes, um espaço secreto onde valores, emoções e relações se revelam de forma subtil, sem moralismos, sem discursos explícitos, apenas através da narrativa, das personagens e das situações que acompanham o imaginário da infância. É nesse lugar silencioso que as crianças
aprendem a escutar, a compreender o outro e a refletir sobre o mundo ao seu redor.

Quando pensamos em literatura infantil, é comum procurarmos uma mensagem clara ou uma lição identificável: a importância da amizade, a diferença como valor, o respeito, a partilha ou o cuidado com a natureza. No entanto, a verdadeira força dos livros para crianças não reside necessariamente em ensinar algo de forma direta. Reside na experiência de se verem refletidas nas histórias, de se relacionarem com personagens que sentem, erram, aprendem e se transformam. É nesse contacto e nesse processo que se instalam, de forma quase invisível, sementes de empatia, curiosidade e consciência.

Ao ouvir ou ler uma história, a criança não está apenas a receber informação; ela vivencia pequenas decisões, interpreta comportamentos, observa relações, sente emoções. Aprende a lidar com a frustração, a diferença ou a empatia não porque alguém lho explica, mas porque a narrativa lhe permite viver essas situações num espaço seguro. Esta aprendizagem não está impressa nas páginas como instrução, está presente na narrativa e acontece ao ritmo da história, nas escolhas das personagens e na forma como os conflitos são apresentados e resolvidos ou, por vezes, deixados em aberto.

Deste modo, o papel do escritor torna-se delicado, mas essencial. Criar histórias que respeitem a inteligência emocional da criança é, acima de tudo, criar contextos de descoberta e de reflexão.
Não se trata de dar respostas prontas, mas de abrir portas para que a criança construa o seu próprio entendimento. Cada história, mesmo que curta, funciona como um laboratório, onde se experimenta viver, errar, corrigir e aprender em segurança.

Algumas obras contemporâneas de literatura infantil têm procurado esse caminho: histórias que abordam valores humanos, a relação com a natureza ou a convivência com a diferença através de narrativas sensíveis, próximas do quotidiano infantil. Em Alice, uma abelha diferente, por exemplo, o tema da diferença surge integrado na própria identidade da personagem e na forma como ela se relaciona com o mundo à sua volta. Não há uma moral explícita, mas há espaço para a criança observar, sentir e refletir, exatamente nesse lugar onde a aprendizagem acontece sem ser anunciada.

Além disso, os livros infantis são pontes entre gerações. Quando pais, educadores ou cuidadores leem com uma criança, criam-se momentos de diálogo, reflexão e afeto. A experiência partilhada de leitura amplia o impacto das histórias, transformando o livro num instrumento de conexão. E mesmo quando o adulto não explica, a criança absorve nuances, interpretações e valores que serão incorporados na sua forma de olhar o mundo.

Portanto, a literatura infantil ensina mais do que aquilo que lemos. Ensina sem estar a ensinar, de forma implícita e poderosa. É nesse espaço que se desenvolve a empatia, se compreende a diferença, se exploram emoções e se constrói uma relação consciente com o outro e com o mundo. Cada livro é, assim, uma pequena experiência de vida, oferecendo à criança ferramentas invisíveis para perceber e interagir com a realidade de forma sensível e cuidadosa.

Talvez seja aqui que reside o maior desafio e, também, a maior beleza do trabalho de um escritor: criar histórias que acolham, provoquem e acompanhem, deixando espaço para que a criança aprenda sozinha, mas sempre apoiada pelas palavras e pelo ritmo da narrativa. E é nesse intervalo entre as palavras e a imaginação que a literatura infantil cumpre o seu papel mais profundo, mesmo depois do livro se fechar, torna-se memória, afeto e presença duradoura.

*Sílvia Mota é autora de Literatura Infantil

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