27 de February, 2026
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O que é, afinal, saúde?
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O que é, afinal, saúde?

Fev 27, 2026

Parece uma pergunta simples. Mas, se a fizermos, a dez pessoas, provavelmente teremos dez respostas diferentes.

“Não estar doente.” “Sentir-me bem.” “Conseguir trabalhar.” “Dormir uma noite inteira.” “Ter energia para brincar com os netos.” Todas estas respostas estão certas porque a saúde é, ao mesmo tempo, muito pessoal e muito mais ampla do que costumamos imaginar.

A definição que mudou a forma como pensamos

Em 1948, a Organização Mundial da Saúde propôs uma definição que ainda hoje é citada: saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença.

Foi uma visão inovadora, porque reconheceu que o que se passa na mente e nas relações sociais é tão importante quanto o que se passa no corpo. No entanto, também foi criticada: falar em “bem-estar completo” parece descrever uma condição ideal inatingível. Ninguém está completamente bem todos os dias, em todas as dimensões, durante toda a vida. Se levada à letra, essa definição faria de quase todos nós “doentes” quase sempre. E isso não ajuda.

A saúde como capacidade — não como perfeição

Hoje encaramos a saúde não como um estado fixo e perfeito, mas como uma capacidade: a capacidade de viver, funcionar e recuperar, apesar dos desafios inevitáveis da vida.

Uma pessoa com diabetes bem acompanhada e controlada, que se sente bem e sabe gerir a sua doença crónica, pode ter uma saúde excelente. Pelo contrário, alguém sem diagnóstico concreto “no papel”, mas com ansiedade persistente, solidão e insegurança, pode estar a sofrer profundamente. Isto mostra-nos algo essencial: a saúde não cabe apenas nos exames.

Três camadas que se influenciam

Podemos pensar na saúde como um bolo mármore com pelo menos três camadas, que se entrelaçam, sempre todos os dias e a cada hora:

O corpo. Os sintomas, os órgãos, os exames, os números. A medicina tem aqui ferramentas muito poderosas — da vacinação à cirurgia, dos antibióticos à reabilitação. Mas o corpo não vive isolado. Ele responde ao resto.

A mente. As emoções, o pensamento, o stress, a resiliência. A saúde mental não é fraqueza, não é tolice. É uma base invisível que sustenta o sono, a motivação, as escolhas e os relacionamentos e até a forma como o corpo reage à dor e à doença. Cuidar da saúde mental é cuidar da saúde inteira.

O contexto em que vivemos. Onde moramos, se temos rendimentos estáveis, se o bairro é seguro, se há espaços para caminhar, se temos acesso a alimentos saudáveis, a transportes, a uma rede de apoio, a ar de qualidade. Tudo isto influencia a saúde de forma concreta , muitas vezes antes de  entrarmos num consultório. Na saúde pública diz-se que o “código postal” pode pesar mais do que o “código genético”.

Então, saúde é só uma escolha?

As escolhas contam: mover o corpo, dormir melhor, reduzir o álcool e o tabaco, alimentar-se bem, fazer os rastreios, pedir ajuda quando é preciso. Tudo isso é importante.

Mas há outra parte que não podemos ignorar: as condições que tornam essas escolhas possíveis. É diferente falar de alimentação saudável com tempo e orçamento para cozinhar, ou em precariedade. É diferente falar de exercício quando há ruas seguras e espaços verdes, ou quando não há passeios nem iluminação. É diferente falar de “reduzir o stress” com estabilidade, ou quando temos permanente preocupação com o fim do mês.

Por isso, saúde também é uma questão de equidade: garantir que mais pessoas têm condições reais para cuidar de si.

O que isto muda na prática?

Quando falamos de saúde, não falamos apenas de hospitais e consultas. Falamos também de prevenção e literacia em saúde ,  informação clara, sem medo e sem culpa. De apoio à saúde mental e combate ao isolamento. De políticas locais que tornem a vida mais saudável: ar, ruído, mobilidade, espaços públicos, habitação digna. De acesso atempado a cuidados e rastreios. E de redes comunitárias que não deixam ninguém para trás.

A saúde constrói-se em vários lugares: em casa, na escola, no trabalho, na rua, no centro de saúde  e na forma como nos tratamos uns aos outros.

Um convite para esta coluna

Nesta coluna quinzenal, vamos conversar sobre saúde de forma prática, humana e rigorosa: do corpo à mente, da prevenção ao diagnóstico, do individual ao coletivo. Sem jargão desnecessário — mas sem fugir à complexidade quando ela é importante.

Porque compreender a saúde é, em si mesmo, uma forma de a proteger.

*Zacharoula Sidiropoulou é Assistente Hospitalar Graduada de Cirurgia Geral, Coordenadora da Unidade de Senologia (Mama), ULS Lisboa Ocidental e Professora Convidada Nova Medical School. Escreve para CASCAIS24HORAS quinzenalmente a título pessoal.

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