Escândalo no executivo municipal de Cascais

OPINIÃO | ANTÓNIO D`OREY CAPUCHO
É ridícula e não colhe a justificação do Presidente da Câmara para ter atribuído pelouros ao Chega e assim provocado a renúncia dos Vereadores do PS aos pelouros que lhe foram atribuídos após acordo com o PSD. O argumento invocado por Piteira Lopes assenta no facto
de que anunciara antecipadamente que convidara todas as forças políticas representadas na Câmara para integrarem o executivo.
Este argumento não colhe por duas ordens de razões.
Desde logo porque, ao convidar o PS, Piteira Lopes aceitou a condição de que a assunção de pelouros pelos socialistas não permitiria que ao Chega fossem também atribuídas semelhantes responsabilidades.
O que se passou em plena Assembleia Municipal foi rocambolesco: o Chega (e não o Presidente da Câmara) anunciou, para surpresa geral, a nova coligação que iria excluir ipso facto o PS. Não sei se o Chega abusivamente se antecipou a Piteira Lopes no anúncio ou se estavam combinados e tudo não passou de uma encenação de mau gosto, mas em qualquer caso a coisa não foi abonatória para nenhum deles.
Resta agora saber se o PS, em coerência com a atitude assumida, não só abdicou dos pelouros que detinha, como os Vereadores não vão aceitar qualquer cargo remunerado nas muitas entidades do perímetro municipal dependentes da Câmara, passando a assumir uma função essencial em qualquer governo, qual seja a de passar à oposição, actualmente assumida pelos eleitos nas listas Jonet.
A segunda questão que torna o argumento de Piteira Lopes enganoso e mesmo perigoso, é que não faz qualquer sentido em democracia, excepto em casos extremos (como em cenários de guerra), que todas as forças políticas integrem o executivo, deixando a oposição sem protagonistas que possam assumir o acompanhamento, a crítica e a fiscalização da gestão do governo, neste caso da Câmara Municipal. Seria uma situação porventura desejada pelo partido liderante, que assim ficaria com rédea solta para as tropelias e ilegalidades que entendesse prosseguir, tanto mais que a capacidade de intervenção na Assembleia Municipal é muito limitada.
De qualquer modo, mesmo que Piteira Lopes tivesse manifestado previamente a intenção de convidar tutti quanti para o executivo, a verdade é que aceitou – e depois levianamente “enviou às malvas” – a condição que o PS lhe colocou.
Esta situação revelou ainda duas situações verdadeiramente caricatas. O CDS, em vez de assobiar para o lado perante o enorme sapo que engoliu, resolveu emitir um comunicado risível a discordar da decisão do PSD, mas a justificar a permanência no executivo. Ora, é evidente que o CDS – que só sobrevive em Cascais (e a nível nacional) graças à inexplicável benevolência do PSD -, não bateu com a porta porque não quer perder as múltiplas posições remuneradas que militantes seus assumem nos órgãos municipais e das freguesias, bem como nas entidades do perímetro municipal dependentes da Câmara.
A outra situação, reveladora da flagrante incoerência do PSD, foi a entrega de pelouro a um dos eleitos do Chega, quando há poucas semanas o então Presidente da Câmara produziu a seguinte intervenção sobre esse Vereador (consta no Youtube): “na próxima reunião da Câmara trarei uma proposta para destituir o Senhor Vereador da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização das Águas de Cascais, também pelo motivo de ser incompetente. Ainda não vi qualquer trabalho por parte do Senhor Vereador. E recebe dinheiro (…) para fazer isso e não faz nenhum (…)”. Ou seja, Piteira Lopes considera que tem perfil para integrar o executivo municipal um Vereador do Chega que Carlos Carreiras despediu publicamente (de forma deveras deselegante) por considerá-lo “incompetente” e porque “não faz nenhum”. Elucidativo…
Eis como em Cascais se fez tábua rasa do “não é não” num processo que deve indignar todos os militantes do PSD e também os eleitores em geral. Sempre quero ver se o novo Presidente do PSD-Cascais, um fiel seguidor político do Presidente da Câmara e ele próprio Deputado Municipal, convoca um plenário dos militantes para análise da situação.
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