28 de August, 2025
CASCAIS, Vila de Reis e Pescadores
Artigos de opinião Atualidade

CASCAIS, Vila de Reis e Pescadores

Ago 10, 2025

OPINIÃO | SALVADOR SOMMER SACADURA

Cascais foi conhecida durante muito tempo (desde que D. Luís trouxe a corte) como uma terra de reis e de pescadores. Uma vila onde se cruzavam, com naturalidade, a aristocracia e o povo do mar, os veraneantes ilustres e os cascaenses de sempre. Essa harmonia, que fazia de Cascais um lugar único no país, está hoje a ser destruída pela voragem da especulação imobiliária, pela cultura do evento, pelo desleixo de um poder político que se contenta em gerir, quando devia governar.

Chamem-me o que quiserem — “socialista”, “estatista”, “antiliberal”. Um desses três sou, seguramente (basta puxar pela cabeça). Mas mais do que rótulos, acredito nisto: o poder político existe para servir propósitos morais. Não para se submeter a lógicas de mercado, nem para se moldar a modas urbanísticas de ocasião. O poder político — sobretudo o municipal — tem o dever de conservar. Conservar uma certa ideia de cidade, uma determinada forma de vida, uma paisagem humana que, sendo antiga, continua a ser nossa. A missão de quem governa um município não é apenas tapar buracos ou organizar festivais. É ser guardião de uma identidade.

A Cascais de hoje já não é a de ontem. E não o digo por saudosismo fácil, mas por lucidez. A construção desenfreada de condomínios de luxo fez brotar, como cogumelos, comunidades muralhadas que matam a vida social dos bairros. A vila interclassista deu lugar a uma terra compartimentada, artificial, onde os laços comunitários são substituídos por barreiras de segurança e portões automáticos.

Recordar a velha Cascais não é um exercício de nostalgia, é um imperativo de futuro. Se quisermos uma terra viva, com alma, com pertença, devemos escutar o passado — esse que nos fala de um lugar onde a tradição não era um empecilho, mas uma forma de viver com dignidade.

Cascais não pode ser apenas um produto imobiliário ou um cenário de Instagram. Tem de voltar a ser casa; para os que cá estão; e para os que hão de vir.

Por tudo isto, importa afirmar com clareza: o tempo do VIVA CASCAIS tem de chegar ao fim. O poder autárquico que pouco entende de ideologia exige rotatividade. Quando o poder se eterniza, perde o pudor, o sentido, a missão — e, sobretudo, a memória.

A política, quando vocacionada para o serviço e não para a carreira, exige memória. Nós, cascaenses, somos herdeiros dessa memória viva da vila interclassista de reis e pescadores. Isto não é apenas um chavão. É uma lembrança, infelizmente já esquecida pelo actual executivo, de que Cascais é um lugar onde há espaço para todos.

–Os artigos de OPINIÃO publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de CASCAIS24HORAS.

LER artigos de opinião em https://cascais24horas.pt/category/artigos-de-opniao

2 Comments

  • Excelente artigo! É muito bom ver que há gente nova com inteligência, saber, e que pensa sem se vergar à lógica acéfala de quem só se preocupa em se manter no poder, mesmo que esse poder dê cabo da Vila de Cascais, como tem acontecido nas 2 últimas décadas.
    Cascais precisa urgentemente de gente como o Salvador.

  • Óptima reflexão sobre o que deve ser uma gestão autárquica orientada para o cidadão.

Deixe o seu Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *