7 de March, 2026
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A saúde da mulher não cabe num único dia
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A saúde da mulher não cabe num único dia

Mar 7, 2026

O dia oito de Março volta todos os anos e com ele voltam as flores, as campanhas cor-de-rosa e os posts nas redes sociais. Mas a saúde da mulher não tem data marcada. Está presente todos os dias, nos corpos que envelhecem, nas menopausas silenciadas, nos sintomas ignorados, nas consultas adiadas porque “não há tempo” ou porque “não é para tanto”.

Um corpo diferente e ainda pouco estudado

Durante décadas, a investigação clínica excluiu as mulheres dos ensaios. Isso tem consequências reais: os sinais de enfarte numa mulher são frequentemente diferentes dos de um homem, chegando mais tarde ao diagnóstico e com pior prognóstico. A doença cardiovascular é a principal causa de morte nas mulheres portuguesas, mas ainda é vista, erroneamente, como “doença de homem”. A menopausa, uma transição fisiológica com impacto ósseo, cardiovascular, cognitivo e emocional, continua a ser tratada como tabu. Merecemos melhor do que isso.

Quando a dor não é levada a sério

As mulheres esperam, em média, mais tempo do que os homens para receber analgesia nas urgências. Os seus sintomas são mais frequentemente atribuídos a “stress” ou “ansiedade”. A endometriose, que afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade fértil, demora em média sete a dez anos a ser diagnosticada,  sete a dez anos de dor normalizada, tratada com “é normal doer um pouco”. Não é normal. E reconhecer isso é o primeiro passo.

Saúde mental: o peso invisível

As mulheres gerem, em média, uma carga desproporcional de trabalho não pago, cuidados a filhos, a pais idosos, à casa. Esta carga invisível tem peso real: no cortisol, no sono, na saúde cardiovascular. A depressão pós-parto ainda é subdiagnosticada, a ansiedade perimenopausal confundida com “nervosismo”. A saúde mental da mulher não é uma fraqueza; é uma realidade clínica que merece atenção e tratamento, sem estigma.

Os rastreios salvam vidas, vá

Portugal tem programas de rastreio do cancro da mama e do colo do útero. Mas não chegam a todas. O cancro da mama, quando detectado cedo, tem uma taxa de sobrevivência aos cinco anos acima dos 90%. Quando detectado tarde, o prognóstico muda drasticamente. A diferença entre estes dois cenários chama-se rastreio. Não adie.

O que o 8 de março pode mesmo significar

Conheça o seu corpo. Faça os rastreios. Não normalize a dor. Peça segunda opinião quando não se sente ouvida. Fale abertamente sobre a menopausa, a saúde mental, o que sente. E aos sistemas de saúde e à investigação: cuidar da saúde da mulher não é um favor. É uma obrigação.

A saúde da mulher merece 365 dias por ano. Começamos hoje.

12 dicas para cuidar da sua saúde , 365 dias por ano

🩺 Rastreios e prevenção:  Agende já o próximo rastreio da mama ou do colo do útero e coloque um lembrete anual. Se não conseguir marcar, peça orientação ao centro de saúde.

🎗️ Mama:  Faça auto-palpação regularmente: observe a pele, a forma, retrações, nódulos ou corrimento. Qualquer alteração nova que não desapareça merece consulta.

🩸 Menstruação:  Registe a dor, o fluxo e o impacto no seu dia a dia. Dor forte ou irregularidade persistente não são normais , fale com o seu médico.

🔴 Dor pélvica / endometriose : Se a dor a limita a suas atividades, diga-o claramente na consulta. Dor incapacitante, dor nas relações ou sintomas que persistem por meses merecem investigação.

🌡️ Menopausa:  Fale abertamente sobre o sono, os afrontamentos, a ansiedade, as dores e a libido. Se a afeta, há opções, não tem de sofrer em silêncio.

🧠 Saúde mental:  Faça um check-in semanal: como está o sono, a energia, o humor, a ansiedade? Tristeza persistente, pânico ou exaustão contínua precisam de atenção. Em caso de risco, procure ajuda com urgência.

😴 Sono:  Mantenha uma rotina regular e reduza os ecrãs à noite. Insónia frequente com impacto no seu dia a dia deve ser avaliada.

❤️ Coração: Conheça os seus números: tensão arterial e colesterol quando indicado. Dor no peito, falta de ar, suores frios ou náuseas são urgência, não espere.

🚶‍♀️ Movimento:  20 a 30 minutos de caminhada por dia já contam. Se sentir tonturas, dor ou falta de ar desproporcionada, fale com o seu médico.

🥗 Alimentação:  Metade do prato com legumes e água ao longo do dia. Perda de peso inexplicada, anemia ou fadiga marcada merecem avaliação.

💜 Sexualidade:  Dor nas relações não é normal. Dor, secura intensa, sangramento pós-relação ou infeções recorrentes merecem consulta, sem vergonha.

📋 Na consulta:  Leve três coisas: os sintomas, há quanto tempo os tem e o impacto no seu dia a dia. Peça um plano claro. E se não se sentir ouvida, peça segunda opinião.

*Sandra Chamusco é membro da Assembleia de Freguesia de Alcabideche, Engª Zootécnica, doutoranda em Ciências da Sustentabilidade na Universidade de Lisboa.

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