DOS VALORES CRISTÃOS À BESTIALIDADE HUMANA

OPINIÃO | JOAQUIM FERNANDES
A notícia de uma criança que perdeu as pontas de dois dedos na Escola Básica de Fonte Coberta, em Cinfães, vítima de bullying, causou-me um mal-estar profundo. Admito que este fenómeno é provavelmente mais antigo do que supomos tal como sucede com a violência doméstica, que sempre marcou a vida social. A diferença reside no facto de, hoje, existirem mecanismos de denúncia e enquadramentos legais que permitem punir os infratores. Esta possibilidade deveria ser expressão de um caminho coletivo em direção a uma sociedade mais justa e íntegra, por isso acontecimentos desta natureza ferem ainda mais quem acredita no valor da educação, do respeito e da paz social.
Nasci e cresci em Lisboa, na década de sessenta do século passado, num ambiente em que a formação religiosa e moral se assumia como matriz do quotidiano. Aprendi que cada pessoa merece respeito e que a dignidade humana deve constituir referência ética para a ação individual e coletiva. Torna-se por isso inquietante e até indignante assistir à presença de indivíduos que se afirmam cristãos e que, no entanto, alimentam o ódio e a violência por meio de palavras, atitudes ou cartazes marcados por agressividade. Durante anos acreditámos que a II Guerra Mundial teria desempenhado uma função de advertência moral para a humanidade. Porém, o distanciamento histórico parece ter enfraquecido essa memória e multiplicam-se comportamentos que exploram impulsos primários e instintos de domínio.
A condição humana integra emoções, fragilidades e vulnerabilidades, contudo a sombra da bestialidade permanece latente e manifesta-se sempre que se fragilizam os valores que sustentam a convivência. A evidência desta realidade é atual e concreta. Os apelos à violência, ao racismo e à xenofobia continuam a circular nos espaços públicos e digitais e mostram que a família e a escola permanecem como os principais pilares de formação da personalidade. Pessoas incapazes de lidar consigo próprias, marcadas por ressentimento, inveja ou cinismo, deixam emergir essa dimensão brutal que procuram impor aos outros, gerando ambientes de medo e de exclusão. A reflexão sobre estas questões nunca é excessiva.
Existem discursos, imagens e mensagens que fomentam o ódio, legitimam o bullying e promovem a violência. A denúncia é necessária, mas não basta, exige-se igualmente uma atitude firme de combate sustentada na força esclarecedora da palavra. Esta força requer persistência e repetição até que produza efeitos transformadores.
Da minha parte, reafirmo o compromisso de utilizar a palavra e o comportamento quotidiano como instrumentos de rejeição e combate a qualquer deriva desumana. A convivência democrática depende desta vigilância contínua e de uma ética de responsabilidade que impeça a normalização da violência.
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