Piteira Lopes não é confiável

OPINIÃO | SALVADOR SOMMER SACADURA
Os factos são simples. O PSD — que lidera a coligação VIVA CASCAIS, integrando o CDS — celebrou um acordo de governação com o Partido Socialista para o executivo municipal. O PS, sem surpresa após uma campanha e um mandato de oposição morna, assumiu responsabilidades e participou na gestão corrente da Câmara.
Agora, à primeira oportunidade politicamente relevante — e para surpresa apenas dos mais desatentos — o Chega anuncia, em plena Assembleia Municipal, pela voz de Carlos Reis, um acordo de governação com o VIVA CASCAIS. Um acordo formal, com pelouros atribuídos: Desporto e Anti-Corrupção. Momentos depois, num exercício de contorcionismo político, o CDS declara que não concorda com o acordo, mas que permanecerá leal à coligação, acrescentando que reunirá os órgãos competentes para discutir o assunto. A conclusão dessas reuniões? A confirmação do que já tinha sido afirmado em Assembleia Municipal. O PS, perante o novo cenário, fiel à lógica das cercas sanitárias selectivas, abandona o executivo.
Estes são os factos. O resto é interpretação.
A forma como o PSD conduz este processo é, no mínimo, elucidativa. Não se trata de discutir se é legítimo procurar maiorias alternativas. Por princípio, sou crítico de cercas sanitárias, quaisquer que sejam. A democracia vive da tensão permanente entre confronto e entendimento. O que importa discutir é o método com que, em Cascais, os entendimentos se fazem e desfazem. Aparentemente, os acordos duram exactamente o tempo da sua utilidade. Nem mais um dia.
Houve quem tivesse avisado, no momento próprio, que confiar em Nuno Piteira Lopes como parceiro estrutural era um exercício arriscado. Houve quem alertasse o CDS Cascais de que a estabilidade dependia exclusivamente da conveniência política do presidente. Não quiseram ouvir. Talvez hoje percebam que a lealdade, quando não é recíproca, deixa de ser virtude e passa a ser ingenuidade. Hoje calhou ao PS. Amanhã poderá calhar a outros.
Mas seria intelectualmente desonesto pintar o PS como vítima inocente.
O acordo anterior entre PSD, CDS e PS não previa — ao que tudo indica — qualquer cláusula de exclusividade ou mecanismo de estabilidade reforçada. O PS aceitou integrar o executivo, ocupar posições na orgânica municipal, participar no universo sempre sensível das empresas municipais, assessorias e nomeações. Fê-lo sem blindagens políticas claras. Agora manifesta surpresa.
A indignação tem, por isso, um problema de credibilidade. Quem aceita entrar num arranjo político sem garantias sólidas não pode depois fingir desconhecer a natureza transitória do compromisso. A política não é um internato suíço. É um exercício de poder.
Quanto ao Chega, o episódio é particularmente revelador. O partido que construiu parte significativa da sua narrativa em torno do combate moral aos tachos demonstra apreciável flexibilidade quando confrontado com a possibilidade de integrar o aparelho municipal. Os pelouros aceites dizem mais sobre vontade de reconhecimento institucional do que sobre qualquer revolução política iminente. O sistema, afinal, não é assim tão impuro quando abre a porta.
Sabe-se também que não se tratou de um capricho local ou de um caso isolado nas cúpulas do Chega. O acordo foi, como proclamado em Assembleia Municipal, autorizado por André Ventura. Isto denuncia uma confortável duplicidade: combate-se o sistema diante das câmaras de televisão, mas negoceia-se com ele nas câmaras municipais. A exigência programática evapora-se quando surge a oportunidade de ocupar um lugar à mesa.
Tudo isto resume-se a uma questão menos ideológica do que prática: gestão de equilíbrios internos. O PS é experiente, conhece os meandros da máquina municipal e sabe o valor político de cada espaço ocupado. Negociar com o PS implica exigência.
O Chega, mais recente e mais ansioso por consolidação institucional, exige menos. Para quem precisa de manter satisfações internas e assegurar que ninguém fica sem quota de poder, a escolha torna-se quase técnica: alia-se a quem pede menos; afasta-se quem pede mais. Conveniência pura.
E na última segunda-feira assistiu-se ainda a um espectáculo pouco edificante por parte do CDS Cascais na Assembleia Municipal. Declarar que não se concorda com o acordo, mas que se permanece leal à coligação, constitui uma curiosa inovação doutrinária: uma objecção moral sem consequência prática. Discordar, mas continuar. Protestar, mas votar. Condenar, mas viabilizar. A coerência transforma-se em ornamento.
Talvez alguns acreditem que a política é apenas retórica. Não é — ou, pelo menos, não deveria ser. Como disse Isabel Sande e Castro, dirigindo-se à bancada do CDS, há que ser consequente com o que se afirma, na vida e na política. Quando se diz que algo está errado, há momentos em que isso exige agir como se estivesse errado.
O que tudo isto demonstra é simples: em Cascais, como em tantos municípios, o poder organiza-se em torno da gestão do aparelho e dos seus vícios. Ideologias, doutrinas e discursos existem, mas orbitam em torno de algo mais terreno — lugares, equilíbrios, sobrevivência interna.
E é aqui que emerge uma evidência incómoda para alguns: o único bloco que não participa nesta geometria variável é o movimento Cascais para Viver.
A independência, neste caso, não é apenas ausência de sigla partidária. É ausência de dependência estrutural. É não ter de gerir aparelhos, distribuir satisfações ou acomodar equilíbrios internos.
Por isso, a liderança da oposição não caberá ao PS, que já participou no acordo anterior e perdeu margem moral para reclamar superioridade ética. Nem será de quem discorda enquanto permanece confortavelmente instalado.
Hoje, a única oposição estruturalmente livre é a que não precisa de negociar a sua própria sobrevivência: a do movimento Cascais para Viver, liderado por João Maria Jonet.
Estes são os factos. O resto é conversa.
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