7 de March, 2026
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Cascais, a máquina de fazer políticos
Artigos de opinião

Cascais, a máquina de fazer políticos

Mar 7, 2026

OPINIÃO | RUI FRADE RIBEIRO

A política nos anos 70 e oitenta era uma coisa empolgante, entusiasmante.

As pessoas que participavam ativamente na política tinham, na sua esmagadora maioria, uma efetiva e genuína vontade de participar na discussão da coisa pública, da governação nacional e local, numa perspetiva de ajudar a melhorar as condições de vida da população. Havia uma preocupação e respeito pelos outros, pelas pessoas anónimas ou não, que nos rodeavam.

O combustível da política e dos políticos era, naqueles tempos, servir, servir os concidadãos, servir o país.

Com os anos noventa assistiu-se a uma paulatina alteração deste status quo, com a invasão dos Partidos políticos por tecnocratas que passaram a tratar a sua participação na vida política não como um meio de servir os outros, mas antes como uma maneira de gerirem a melhor forma de se perpetuarem nestas andanças, num esquema de portas giratórias, em que a política passou a ser meio de garantir uma “pseudo vida profissional” dentro da política.

Com o advento do novo século, este esquema foi aprimorado, com uma rede de novos empregos gerados em empresas e agências municipais que serviram para encontrar quem, através destes empregos garantidos, perpetuassem dentro dos partidos os empregos no sistema político.

A máxima “eu garanto-te um emprego tu garantes-me o meu emprego na política” passou a ser uma realidade incontornável.

O PSD Cascais foi dos primeiros a implementar tal sistema que durou até aos dias de hoje.

O último plenário do PSD a que assisti antes de pedir a demissão do Partido em 2013, evidenciou-me essa triste realidade – Das setenta e tal pessoas presentes no Plenário, mais de sessenta eram funcionários da Câmara de Cascais ou de empresas municipais!

Quem, num cenário destes, quer pôr em causa o seu emprego afrontando os detentores do poder em Cascais?

Hoje, o interesse público deixou de ser motivo e passou a ser argumento.

A Câmara liderada por António Capucho, (2002 – 2006) foi o último momento de democracia em Cascais.

A partir da saída de António Capucho da CMC e com a ascensão de Carlos Carreiras à presidência, a máquina de fazer políticos foi ligada e continua a produzi-los, com péssima qualidade, mas com sucesso na ocupação de lugares de decisão.

Com as portas giratórias bem oleadas, os lugares deixaram de ser ocupados pelos que aparentemente disponham das melhores capacidades e passaram a ser ocupados pelo sistema.

Só assim se percebe a razão por que a qualidade dos intervenientes políticos locais baixou a níveis intoleráveis.

A prova dos nove pode ser tirada pela análise dos CV destes eleitos.

Apreciem o CV de Nuno Piteira Lopes, o novo Presidente da Câmara de Cascais, que desde 2002 é funcionário municipal, ora como adjunto de vereador, ora como Vereador. Nos últimos 24 anos limitou-se a “surfar as vontades partidárias” que têm apadrinhado a sua manutenção na lista de “funcionários” municipais. Com sucesso.

Apreciem o CV do Vereador do CDS Pedro Morais Soares. Depois de 1 mandato como vereador e 3 mandatos como Presidente da Junta de Cascais agora trocou com Francisco Kreye para garantir mais quatro anos de mandato… Nem o escândalo com o acordo com o Chega o levou a pestanejar. Entre o vencimento e a dignidade exigível numa relação de coligação prevaleceu o vencimento.

Nas outras Juntas de Freguesia, o panorama não é igualmente animador.

A política precisa de gente com vida, com mundo, que conheçam o mundo do trabalho e não de aparelhistas que se limitam a perpetuar no poder quem lhe possa valer vantagens e manutenção dentro do sistema.

E não se pense que a coligação Viva Cascais no poder em Cascais é o único sinal do que acabo de afirmar.

O Partido Socialista quis fazer parte da partilha de lugares, e o Chega, que se arroga de antissistema, está deserto para integrar o sistema também, como ficou bem patente nos últimos desenvolvimentos em Cascais.

O poder em Cascais apodreceu.

Aos Partidos será difícil contrariar este estado de coisas, os Pelouros e os lugares falam sempre mais alto.

Restam-nos os movimentos, os não Partidos, que agreguem pessoas que estejam mais interessadas em servir do que de se servirem.

Quando a maioria dos eleitores acordar e tomar consciência do estado a que isto chegou talvez tenha chegado a hora. Até lá, limitemo-nos a gozar Cascais agora agraciada com o título “Capital da Democracia 2026”… O dinheiro compra tudo, ou quase tudo…

*Rui Frade Ribeiro é deputado na Assembleia de Freguesia de Alcabideche por Cascais Para Viver-Jonet

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