Anotações a propósito do novo Presidente da República

OPINIÃO | VASCO GRAÇA
A tomada de posse de António José Seguro assinalou uma nova fase na vida da segunda República e nas expectativas de muitos cidadãos.
Feita essa constatação óbvia, estas anotações deverão, ainda que a contragosto, transmutar-se para um registo na primeira pessoa do singular ainda que tal seja um recurso mais adequado ao comentarismo das redes sociadigitais e dos blogues onde, tendencialmente, o mensageiro se evidencia mais do que a mensagem, o que não é, de todo, o caso aqui pretendido.
Reconheço que sou uma modesta parcela dos 3,5 milhões de portugueses que encontraram 1143 boas razões para não querer na presidência desta República democrática um saudosista dos tempos de antanho. Todavia fui também um dos membros do Partido Socialista de Cascais que teve diversas oportunidades de interagir com António José Seguro e aperceber-se de algumas das suas características que poderão evidenciar-se na presidência que agora inicia.
A primeira reunião que tive com o, ainda então, Secretário Geral do PS, foi a propósito das eleições autárquicas em Cascais tendo a mesma sido agendada para que ele me convencesse que, ao contrário do que eu pensava, o Dr. João Cordeiro poderia ser um bom vereador para este concelho.
Recordo, dessa reunião, que António José Seguro pouca importância dava a calculismos eleitoralistas ou a “pequenas geometrias” mais à esquerda ou mais à direita privilegiando, sobretudo, as qualidades de quem sendo um democrata e um humanista se caracterizava pela capacidade de diálogo e pela resistência a quaisquer formas de cedência a interesses particulares ou conveniências politiqueiras em detrimento do bem comum.
Não creio que, nessa ocasião, eu tenha sido convencido mas constatei que, contrariamente à imagem que dele era mediaticamente promovida, Seguro era um político muito determinado com convicções fortes e um inquebrantável apego a princípios de transparência e de rigor no serviço à causa pública.
Tendo prevalecido a orientação de que eu inicialmente discordara pude, posteriormente, convergir com o juízo formulado por António José Seguro comprovando, que este era politicamente perspicaz e um bom avaliador das pessoas. De facto, a vereação encabeçada pelo Dr. João Cordeiro veio a ser aquela que, no PS, assumiu de forma mais consistente e determinada obstar aos desmandos da maioria absoluta PSD/CDS caudilhada por Carlos Carreiras.
Mais tarde, nas eleições primárias do PS, fui dos poucos, em Cascais, a apoiar Seguro ao invés da vontade da maioria do aparelho partidário que entendia ser eleitoralmente mais rentável eleger António Costa. Foi publicamente que disse a Seguro discordar de algumas das suas opções políticas, mas que o apoiava porque entendia ser essa a opção eticamente mais justa. Nunca me arrependi dessa opção nem lamentei a ostracização prolongada que, no PS Cascais, tal me acarretou.
Nesse longínquo 2014 pude testemunhar que António José Seguro radicava nas suas convicções de ética republicana uma especial aversão a quaisquer promiscuidades entre negócios e política. Privilegiava as convicções e os valores acima de quaisquer calculismos circunstanciais ou taticismos interesseiros.
Foi assim que, por causa de Cascais, pude reconhecer em António José Seguro um político inteligente, discreto, desapegado de interesses ou privilégios, empenhado nas causas do bem comum, aberto a dialogar com os que dele possam discordar mas sem ceder a facilitismos ou a nefastos populismos.
Creio, por tudo isto, que o novo Presidente da República pode, provavelmente, contribuir para uma resposta mais favorável a quantos portugueses têm a expectativa de ver Portugal mudar para melhor. Oxalá…
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